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Mundo de sombras
Livro I
A queda de Tula

CAPÍTULO I 
Ele acordara agitado naquela manhã. Ainda se lembrava do estranho sonho que tivera, onde pessoas com grandes mantos negros o perseguiam implacavelmente pelo deserto. Sabia que estava sonhando, mas tudo lhe parecia ser por demais real que absorvia sua atenção, deixando-o imerso na grandiosidade da visão. Jamais vira um lugar como aquele.  Era um deserto estranho, coberto por areias amareladas e rochas acobreadas que se achavam dispersas aleatoriamente pela paisagem. Apesar de ser dia, o céu estava escuro e repleto das mesmas luzes brilhantes que via todas as noites, mas estas eram bem diferentes das que costumava ver. Seu pai lhe dissera que aquelas luzes eram os olhos dos mortos que não conseguiram ir para o mundo subterrâneo e perderam-se no caminho, indo parar lá em cima. Aquelas almas perdidas então piscavam seus olhos o tempo todo, tentando enxergar através do breu da noite. Mas as luzes do sonho pareciam ser muito maiores que olhos e mais brilhantes ainda, luzes que tremulavam e, de forma pitoresca, giravam em meio ao breu, exibindo todos os tipos de cores. Os sentidos pareciam ser ampliados naquele lugar, e ele mais sentia o lugar do que via. E o mais estranho é que sentia com todo seu corpo, o que era uma coisa inexplicável e sem sentido, mas ele desfrutou daquela maravilhosa sensação por algum tempo e fazendo isso, demorou a perceber o que se aproximava. Enquanto percorria os arredores com o corpo, de repente os viu: pessoas vestidas com mantos negros como o céu da noite, aproximando-se rapidamente. Subitamente e sem saber o porquê, aquela sensação corporal sinalizou o perigo e ele começou a correr. Não sabia o motivo da perseguição, mas seu corpo sentia que morreria se ficasse ali parado e buscou desesperadamente fugir, correndo o mais rápido possível enquanto percebia que aquelas pessoas chegavam cada vez mais e mais perto. Sua corrida era dificultada ora pela areia fofa que fazia com que cada passo que desse afundasse suas pernas até os joelhos, ora pela enorme quantidade de pedregulhos que havia nos trechos onde a areia era mais compacta, machucando seus pés descalços. Sentia-os sangrando e cada passo que dava parecia-lhe uma agonia. Só então percebera que estava totalmente nu. Até tentou pensar no motivo de estar nu em meio a um deserto, mas a urgência do momento o impedia de fixar-se nos pensamentos. Seus músculos começaram a ficar doloridos e sentia alfinetadas nas pernas que, em certo momento, pareciam ser feitas de rocha, tornando-se mais e mais pesadas com o passar do tempo. Mas as pessoas com seus mantos negros não demonstravam padecer das mesmas dificuldades que ele, e sua corrida não era diminuída pelos obstáculos. Apavorado, viu que elas começavam a cercá-lo aos poucos, vindas de todos os lados. Aquelas figuras não produziam som algum, e pareciam flutuar a alguns centímetros do chão ao invés de correrem. E sua corrida silenciosa assustava-o muito mais do que a visão dos mantos negros com capuzes que escondiam suas faces.
A perseguição já durava um bom tempo e ele começava a sentir-se exausto. Já estava a perder a esperança quando pelo canto do olho notou um pequeno desfiladeiro que se encontrava à sua direita. Correu para lá, buscando um abrigo qualquer onde pudesse se esconder. Logo se viu de frente a um paredão de rochas cor de cobre, incrustradas com fileiras da mesma cor amarela da areia. Era uma parede irregular, mas passível de ser escalada e ele agarrou-se desesperadamente a cada fresta e proeminência que achava, subindo lentamente rocha acima. O esforço que fazia para subir era tremendo, mas não ousava parar para descansar. Continuou sem parar até que, em meio à escalada, ousou olhar para baixo. Viu a multidão de mantos negros lá parados, impassíveis e silenciosos feito predadores à espera da presa. Continuou a penosa subida pelo paredão, e quando já estava para atingir o topo da rocha escutou um ronco grave e profundo que fez todos os cabelos de sua nuca ficarem arrepiados, o que deteve a sua subida.  Olhou para cima e enxergou uma enorme fera que projetava meio corpo para fora do topo da rocha. A besta lembrava-lhe um jaguar, só que era de um tamanho descomunal, verdadeiramente enorme e possuía duas grandes presas que se projetavam para fora de sua bocarra. Tinha uma pelagem de tom alaranjado e o peito - que arfava vigorosamente - era todo branco. A fera estendeu suas garras e acertou-lhe uma patada que atingiu a cabeça, fazendo com que soltasse seus apoios e despencasse paredão abaixo. Sentiu-se projetado no ar e a cair lentamente, na mesma velocidade que uma pena de pato cairia, até que um baque e a dor nas costas mostrava que atingira o chão, onde as pessoas finalmente o alcançaram. Prostrado e aterrorizado demais para reagir, nada pôde fazer enquanto assistia aquelas pessoas iniciarem uma espécie de metamorfose, livrando-se de seus mantos e aos poucos fazendo seus corpos assumirem formas de animais estranhos e terríveis, verdadeiros seres de pesadelo. Um deles – que possuía a forma de um pássaro gigantesco com grandes dentes pontiagudos em seu bico – deu-lhe uma mordida na perna e ele sentiu uma dor lancinante que o fez uivar. Logo, todos os demais monstros começaram a devorá-lo aos poucos, dando grandes dentadas em sua carne. Sentindo o horror desesperado de ser devorado vivo, despertou em seu catre ainda gritando alto, totalmente encharcado de suor. Durante o resto daquela noite, vigiou o escuro com medo de que o sonho retornasse.
Ao ver que o sono estava realmente perdido, resolveu levantar bem antes do raiar do sol. Afinal, a lida diária na fazenda lhe tomava todo o tempo e forças que possuía, e quanto mais cedo começasse a labuta, melhor. Ele tinha plantações de tabaco, milho, batata, feijão, pimentão, tomate, algodão e cacau para cuidar, além das criações de perus e patos, coisas que o deixavam ocupado demais para pensar nos infortúnios e na vida dura que levava. Também cuidava de nove lhamas, que eram utilizados como bestas de carga. Graças às plantações e criações, sempre tinha uma mesa farta e fazia lautas refeições diárias, um dos poucos prazeres que tinha na vida. A única carne que ele comia de sua criação era a de peru, além de lagartos, cobras e alguma outra ave qualquer que pudesse caçar. Seu pai sempre o proibira de matar os patos para consumo, pois na cultura tolteca eles eram considerados sagrados pelo fato de poderem andar, nadar, submergir e voar e, por conseguinte, eram considerados um símbolo de perfeição no mundo animal e protegidos dos deuses. Mas seus ovos eram uma iguaria festejada que lhes rendia boas moedas de ouro na cidade de Tula. Com o passar da manhã e mergulhado no trabalho, esqueceu-se do pesadelo e seguiu com seu cotidiano. A lida da fazenda era pesada para um homem só e naqueles momentos em que o esforço era demasiado, ele sentia saudades de seu pai, Omaltl.
Omaltl era um homem grande, de tez escura e mãos enormes que, ao mesmo tempo em que arrancavam raízes do chão e cortavam a lenha para o fogo, aquelas enormes mãos também sabiam afagar. Era um homem alegre, mesmo sob o peso da pesada carga que herdara após sua esposa morrer durante o parto e deixá-lo sozinho com um filho pequeno. Possuía um riso farto e alto, e sempre procurava ver o lado positivo da vida, buscando deixar os infortúnios para trás. Lembrava-se dos momentos em que o pai o erguia no ar e o punha sobre seus ombros, levando-o junto para a lavoura. Não tivera irmãos, e sentia que era considerado por ele como o seu maior tesouro. Conforme crescia, ajudava-o cada vez mais no trabalho e via o sorriso satisfeito do grande homem no fim do dia. Não era de muita conversa e falava somente o que achava ser necessário para a sobrevivência do menino, geralmente ensinamentos práticos a respeito do tempo de plantio e sobre a colheita de diversos vegetais, como prever alterações climáticas, cura de doenças e cuidados com os animais...
Mas há doze luas atrás, enquanto arava o campo para a semeadura do milho, escutou o velho homem gritar. Soltando sua ferramenta, correu para onde ele se encontrava e viu-o sentado no chão, segurando a canela. Também viu ao seu lado uma cascavel serpenteando e compreendeu que o homem havia sido picado por ela. Agarrou uma pedra e já ia esmagá-la quando seu pai gritou: - Não! Deixe-a viva!
Olhou para ele sem entender, e mesmo fazendo uma careta de dor, o homem disse: - O estrago já foi feito, filho. De nada adiantará a morte da víbora. Ela só se defendeu. Eu que fui descuidado e pisei em seu ninho. Soltai a pedra.
Jogando a pedra longe, ele ajoelhou-se ao lado do homem que ainda segurava a perna, onde de duas marcas corriam filetes de sangue. Apesar de ainda ser jovem, ele sabia que seu pai não escaparia dessa. Recordava de todas as lições a respeito de evitar cobras que o homem lhe dera. Desconcertado, ele olhava o ferimento mortal enquanto o homem passava o braço por seus ombros. Mesmo passadas doze luas, as últimas palavras proferidas pelo velho homem ainda ecoavam dentro dele, como sussurros inesquecíveis.
- Filho, vós já sois um homem. Nada há para fazer, agora. Seja forte. Como todos os que vivem, minha hora é chegada. Vou agora ao encontro de vossa mãe...
Sentou-se com ele e segurou-o em seus braços, confortando-o e embalando-o exatamente como o pai fazia. O veneno da víbora agiu rápido e logo o velho homem já não dizia mais nada. E Omaltl morreu lentamente em seus braços e ele nada pôde fazer, além de segurá-lo e confortá-lo até sua expiração final, e naquele dia seu pai foi juntar-se à mãe que ele jamais conhecera. Ao cair da tarde levou o corpo e enterrou-o ao lado dela no alto de uma pequena elevação, enrolado em mantas e de pé, conforme a tradição tolteca. Dali, o velho Omaltl poderia seguir para o mundo subterrâneo e enfim encontrar sua mãe e todos os antepassados. Logo após jogar o último balde de terra no buraco, pensou que todos o esperariam lá, quando chegasse a sua vez de partir. Permaneceu um longo tempo ali, sentindo a brisa da tarde secar as lágrimas que escorriam em profusão. E daquele dia em diante, o jovem viu-se sozinho no mundo. O menino se tornara um homem.

Mundo de sombras
Livro II 
O chichimeca desgarrado

CAPÍTULO I 
 
Ainda lembro perfeitamente daqueles momentos no deserto, onde as sombras da noite dominavam a paisagem, e as incontáveis luzes no céu formavam um cobertor multicolorido sobre a minha cabeça. A lua não havia surgido naquela noite, o que deixava a madrugada ainda mais fria e escura, mas eu e meus companheiros tínhamos os corpos aquecidos pela grande caminhada através do deserto. Andávamos somente à noite e não nos atrevíamos a trilhar o imenso areal durante o dia. Tudo era feito e planejado para escaparmos do escaldante calor do sol que queimava a pele, arrancava a água de nossos corpos e confundia as cabeças, levando a uma morte lenta e seca; por isso buscávamos a proteção da escuridão e dormíamos em abrigos improvisados quando o sol fustigava a terra. Agora sentado em cima do grande arco de pedra, já posso divisar o contorno ainda distante da colina no horizonte, que é para onde nos dirigimos. Há quatro dias percorríamos as areias estéreis, fazendo o trajeto que nos levaria até Humun’Kulluaby, a colina sagrada dos toltecas. Eu os acompanhava, mesmo não sendo um deles e mesmo os odiando com todo o meu coração.
Sim, sou chichimeca. Para os toltecas, esta palavra tem um sentido depreciativo e preconceituoso. Para eles, chichimeca significa alguém bárbaro ou selvagem, mas meu povo decidiu assimilá-la como um símbolo de luta contra a opressão e o jugo dos toltecas e seus deuses de carne e sangue. Naquela época éramos várias tribos diversas entre si, cada qual com seus costumes e religiões próprias até que, com a chegada do grande inimigo, tivemos de nos unir para enfrentá-lo. Este dia finalmente havia chegado, mas para mim demorou demasiado, custando-me uma vida inteira de dor, sofrimento e privações. Hoje, revendo tudo pelo que passei, desde a minha lembrança mais remota até a memória mais recente, tornou-se claro para mim que o poder sempre me favoreceu. Nixl diz que esta é uma técnica tolteca chamada de reviver tudo, e foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Rever as minhas dores certamente foi a maior de todas as batalhas que tive de enfrentar na vida.
Não cheguei a conhecer meu pai verdadeiro. Disseram-me que ele havia sido morto durante um dos primeiros ataques dos toltecas contra as fronteiras de nossa terra. Minha mãe ainda era muito jovem e bonita quando ele morreu e era cobiçada por diversos homens da aldeia; mas como era costume, com a sua viuvez minha mãe entrou num período de luto, não podendo ser desposada novamente até que o homem sagrado da aldeia determinasse o fim. E essa decisão poderia demorar muito, pois dependia dos augúrios que ele recebesse da natureza. Desta forma, minha mãe e eu passamos a ter a proteção do chefe da tribo, e ela tornou-se sua segunda companheira, mesmo não tendo obrigações matrimoniais com ele. Assim, eu me tornei seu filho único, já que ele só tivera filhas com sua primeira esposa. Chamava-se Tulopl e era um homem sério e seco em seu trato comigo, mas sempre que eu ficava doente ou me machucava por ter feito alguma traquinagem, pegava-me no colo e me contava histórias a respeito do mundo que nos rodeava, rindo e consolando-me. Assim, aprendi a chamá-lo de pai, e a vida seguia relativamente feliz e em seu rumo normal até o dia em que a guerra chegou até nossa tribo.
Ainda sinto minhas entranhas revirarem ao lembrar as coisas que aconteceram naquele dia e que jamais sairão da minha memória: movimentos e ações que ficaram marcados como se fossem tatuagens em meu corpo de luz. O sol recém surgira por detrás dos morros quando gritos de alerta soaram pelo pátio da aldeia. Agarrado à minha mãe, fui conduzido até o centro da aldeia, onde os guerreiros estavam se reunindo e armando-se de lanças e machados ao redor de meu pai, a quem caía a responsabilidade de defender a aldeia por ser o chefe seu maior guerreiro. Mesmo sendo muito pequeno e não entender bem o que estava acontecendo, pude sentir pelo tremor do corpo de minha mãe que as coisas corriam mal. Via toda a correria das pessoas e seus rostos cheios de preocupação, espelhando o medo de algo muito ruim que estava por vir. Lembro-me bem dos guerreiros sumindo pela mata adentro, deixando para trás os velhos preocupados, mulheres assustadas e crianças que brincavam indiferentes ao que se passava. Afinal, todos os que ficaram na tribo eram considerados inúteis para a batalha.
Foi neste dia que vi os monstros-que-matam-de-pavor pela primeira vez. Logo após a partida dos guerreiros, minha mãe, segurando minha mão e quase esmagando-a, arrastou-me para dentro de nossa cabana e ficamos por um longo tempo parados em silêncio, agachados num canto. Antes ela apagara o fogo, derramando uma cabaça de água nele. Aquilo era coisa rara de se ver, pois sempre havia ao menos uma pequena chama acesa dentro da habitação. Então sentamos e ela me abraçou com força; e podia sentir dentro de mim o medo que ela tinha e que eu não entendia o motivo. Passamos muito tempo assim, até que ela teve um sobressalto quando olhou para a entrada: olhei para onde ela mirava e ambos vimos através da abertura alguns de nossos guerreiros passar correndo, fugindo em desordem por entre as construções. Alguns estavam sanguinolentos e tinham diversas marcas vermelhas pelo corpo, mas o que mais impressionou foram as suas faces, que pareciam tomadas pelo medo e horror; enquanto corriam, gritavam a plenos pulmões para fugirmos e salvarmos nossas vidas, mas a mulher simplesmente não conseguia sair do lugar, e ali ficamos no chão, imóveis, enquanto ela gemia uma canção em honra ao Grande Espírito, pedindo sua atenção e proteção. Eu olhava para os homens que em debandada e não conseguia ver meu pai entre eles, e isto me causava grande aflição. Foi aí que escutei o som mais horrível que já ouvira em toda a minha vida, um ronco profundo e tenebroso e, junto com ele, a figura de algo gigantesco tapou a luz da entrada, escurecendo a cabana. Na época, não sabia o que era aquilo que possuía quatro patas e uma pelagem totalmente negra, mas depois vi muitos jaguares durante a minha vida, apesar de nenhum deles ser tão formidável e assustador quanto aquele havia sido. A gigantesca fera enfiou o focinho pela entrada da cabana e farejou ao redor. Novamente rosnou alto e eu e minha mãe estávamos completamente paralisados de pavor e nem gritar conseguíamos, mas logo a tremenda besta perdeu o interesse por nós, passou por nossa cabana e seguiu no encalço dos guerreiros que continuavam gritando e fugindo.
Fechei meus olhos buscando afastar o medo e agarrei minha mãe com todas as forças, mas o grito de desespero que ela repentinamente deu me fez saltar no lugar: quando olhei, vários homens de vestimentas estranhas e grandes lanças entraram na cabana. Usavam braceletes e colares dourados, além de roupas feitas de penas negras e estranhos desenhos pintados pelo corpo. Eram homens fortes, de faces rudes e sérias, mas riram satisfeitos ao nos verem. Ela puxou-me mais para junto de si, mas fui arrancado violentamente de seu colo e jogado feito um trapo para um canto da cabana, enquanto eu só chorava e assistia os homens rasgando suas roupas, enquanto a violentavam diversas vezes. Ainda tentei correr até ela novamente, mas levei um tremendo safanão no estômago que me fez dobrar de dor no chão, e assim fiquei chorando enquanto eles se revezavam em cima dela. Eu estava inutilizado pelo medo e pela dor, até que alguém me agarrou pelos cabelos e arrastou-me para fora da cabana, e a última imagem que tive do rosto de minha mãe foi a de seus olhos arregalados de pavor, enquanto seu corpo nu era cercado por aqueles estranhos brutos.
Enquanto era arrastado, eu gritava, chorava e esperneava enlouquecido. Do lado de fora, fui colocado junto aos demais habitantes, além de alguns guerreiros sobreviventes que haviam sido capturados na batalha. Ajoelhados, ali estavam praticamente todos os moradores da aldeia que ficaram para trás, agora amontoados juntos no centro do pátio, cercados por centenas – talvez milhares – daqueles soldados armados até os dentes, possuidores de rostos largos e furiosos e suas estranhas vestes. “Toltecas” escutei alguém gemer num sussurro, provocando uma onda de choros e lamentações que logo eram caladas pelas pontas afiadas das lanças ou por violentos chutes nas cabeças. Aquele urro terrível soou novamente, e agora podia ver a grande besta negra em todo o seu tamanho descomunal e terrível aparência. Ela nos rondava, cercando-nos nervosa, parecendo estar prestes a dar o bote mortal em qualquer um que se atrevesse a fugir, mas nada mais fez do que andar para lá e para cá, o que era uma coisa tremendamente assustadora. Porém, ela não estava sozinha: havia mais três daquelas coisas enormes e apavorantes que também rondavam, emitindo sibilos, chiados e gritos agudos, coisas da qual não tenho uma lembrança nítida e nem tento saber o que eram. Enquanto lamentávamos nossa sorte, os toltecas riam de nosso desespero e medo, até que repentinamente ficaram silenciosos e tensos, perfilando-se obedientemente.
Cinco figuras usando grandes mantos feitos de penas cinza e negra surgiram por entre a soldadesca calada, pisando firme no chão com uma autoridade desafiadora. Estranhamente, não senti medo deles como senti dos monstros-que-matam-de-pavor. Aquele porte majestoso, as vestimentas escuras que tapavam suas cabeças e as vozes soando como trovões acima de todas as vozes me atraíam e fascinavam, e eu simplesmente não conseguia desviar os olhos deles. Na época, eu não sabia que diante de nós estavam alguns dos deuses de carne e sangue de Tula em pessoa, os arquitetos daquela guerra e comandantes da expansão do império tolteca.
Sob suas ordens, todas as mulheres – com exceção das velhas - foram separadas dos demais, tiveram suas mãos amarradas e foram atadas uma atrás da outra com cordas em seus pescoços. Entre choros e gritos de lamentação, foram conduzidas pela floresta e logo sumiram de vista. Eu estava aflito, e apesar do meu olhar atento e ansioso, não consegui ver minha mãe entre elas. Logo os homens de manto começaram a passar diante de cada um de nós, e olhando atentamente, vaticinavam um destino diferente: escravidão ou oferenda – que depois fiquei sabendo que era uma palavra mais bonita para o destino mortal de ser sacrificado em nome de seus deuses. Assim fomos separados em dois grupos com dois destinos igualmente terríveis. Fui levado para o grupo que seria oferendado aos deuses e ali fui acolhido por uma velha senhora que me conhecia e era amiga de minha mãe. Ela abraçou-me, tentando dar algum consolo em meio àquele caos de choros, dores e sangue.
Enquanto a macabra seleção acontecia, subitamente um de nossos inconformados guerreiros deu um grito alto, e buscando dar algum sentido à sua morte, lançou-se corajosamente contra os soldados e conseguiu arrancar de um deles uma lança. Avançando e estocando, conseguiu causar algumas mortes rápidas, o que provocou um tremendo alvoroço de correrias e gritos desordenados. Aproveitando que os agressores o cercavam, a velha senhora percebeu que os toltecas transferiam toda sua atenção para ele; agarrou-me pelo braço e sussurrou em meu ouvido:
- Fuja agora! Correi para a floresta e escondei-vos lá! Salveis o futuro de nossa tribo! Vá! Antes que seja tarde!
Empurrou-me para fora do círculo com violência e eu corri como se o próprio jaguar gigante estivesse em meu encalço. Agora vejo que o poder realmente me protegeu naquele dia, pois nenhum olhar tolteca ou até mesmo os monstros-que-matam-de-pavor viram minha louca corrida. Assim que atingi a proteção das árvores, ainda pude escutar o terrível grito de agonia do guerreiro que atacara os toltecas. Minha mente infantil nem cogitava o que poderia ter acontecido a ele, e continuei correndo por muito tempo entre a vegetação até desabar de cansaço no chão.
Fiquei por muito tempo caído, chorando e lamentando a falta de minha mãe, sem entender o que realmente estava acontecendo com meu mundo. Ainda escutei gritos e o barulho dos monstros por horas, mas aos poucos eles foram arrefecendo até só restarem os sons da floresta ao meu redor. De tanto correr feito louco por entre as árvores de pés descalços, vi que estavam machucados e cheios de espinhos. Arranquei alguns, e como não sabia para onde ir, devagar e com cuidado levantei e agora mancando, retornei para o único lugar que conhecia na vida: a aldeia. Com muito medo e com extremo cuidado, levei boa parte da tarde para chegar lá e antes de sair da proteção das árvores, dei uma olhada por detrás dos arbustos. A maioria das construções estavam em chamas, enquanto dezenas de corpos jaziam espalhados pelo pátio, onde bandos de corvos e abutres se refestelavam em vísceras expostas e órbitas esbugalhadas. Não havia mais sinais dos estranhos, dos monstros e nem dos homens de manto, então criei coragem e corri para o pátio.
Lembro como se fosse hoje das horas tristes e angustiantes que passei ali. Busquei minha cabana, mas em meio aos destroços em que a aldeia se transformara não consegui localizá-la. Finalmente a noite caiu e trouxe junto com ela um vento gelado, mas consegui aquecer-me nos restos fumegantes das cabanas incendiadas. Sentia-me faminto, então andei até encontrar algumas frutas e legumes que estavam espalhadas pelo chão, e devorei-as com voracidade. Consegui saciar a fome, mas logo percebi que estava sozinho como nunca ficara antes. Sentia-me exausto e deitei-me ao lado das cabanas ainda em fogo para dormir, mas os sons dos animais na mata me assustavam e praticamente me impediam de ter um sono profundo, fazendo-me acordar a todo instante, pois tinha medo de que fossem os monstros-que-matam-de-pavor retornando para me pegar. Assim se passou a noite mais pavorosa que já tive, até que finalmente dormi profundamente de pura exaustão.

Mundo de sombras
Livro III 
O caminho do guerreiro

CAPÍTULO I 

Não havia nada igual à Tenochtitlán sob a luz do amanhecer. Os primeiros raios do sol refletiam-se nas águas dos canais da grande capital do império mexica – também conhecido como asteca - irradiando e sendo refletido como milhares de pontos multicores pelas pedras das pirâmides dos templos de Huiltzilopochtli, Tezcatlipoca e Quetzalcóaltl. Eles eram os três maiores dentre outras dezenas de templos consagrados aos deuses cultuados por seus mais de trezentos mil habitantes. As diversas pontes que serviam como entradas para a cidade construída sobre o lago Texcoco estavam apinhadas de pessoas que iam e vinham de todas as cidades que formavam o domínio mexica que, naquela época, possuía aproximadamente quinze milhões de pessoas, além do comércio regular com cidades do reino maia, mais ao sul da península. De todas as cidades, as irmãs Texcoco e Tlatelolco eram as mais próximas, e delas convergiam o maior número de pessoas que vinham comercializar, trabalhar ou participar dos cultos religiosos que eram realizados pelos múltiplos templos. Havia vários canais entre as construções e os habitantes utilizavam-nos também como meio de transporte, e centenas de pequenos barcos apinhados de gente e mercadorias percorriam-nos. Há alguns anos antes, a cidade havia sido quase que totalmente destruída por uma tremenda inundação, que chegara a cobrir metade das escadarias dos templos. Por este motivo fora construído um sistema de diques, com comportas que abriam e fechavam conforme o volume de água aumentava ou diminuía, mantendo o nível nos canais constante e propício à navegação e evitando novas inundações.

A cidade era abastecida de água límpida e fresca por dois sistemas de aquedutos que percorriam cinco quilômetros desde as montanhas e jorravam em diversas fontes públicas espalhadas pela cidade, onde qualquer cidadão poderia usufruí-la. Juntamente com um eficiente sistema de comércio que abastecia a cidade com víveres, Tenochtitlán prosperara acima de qualquer expectativa. O comércio era efetuado por uma classe chamada de pochtecas que, com o passar do tempo, tornara-se de grande influência na sociedade, já que não se detinha apenas no comércio, pois também eram utilizados como exploradores, observadores e, em casos específicos, como enviados diplomáticos de paz. Se o acordo de paz não era aceito, deflagrava-se a guerra, com os pochtecas participando ativamente dela. E através deles, encontrava-se praticamente de tudo sendo vendido nas ruas de Tenochtitlán: alimentos de todos os tipos, roupas, utensílios diversos, etc.

Ao seu redor - até mesmo em seu interior - diversas plantações e criações de animais garantiam o abastecimento de grãos, legumes, hortaliças e carne, suprindo as necessidades básicas de seus habitantes. Era um aglomerado bem organizado, com suas construções tingidas por cores fortes. Pela periferia, situavam-se as casas baixas dos calpulli - aqueles que cultivam a terra - que eram moradias simples, de um só piso e geralmente com um só cômodo, bem diversas das grandes moradias multicoloridas dos pipiltin – os nobres - que possuíam dois ou mais pavimentos e situavam-se mais próximos ao interior da capital. Bem em seu centro, situava-se a grande pirâmide do templo de Huiltzilopochtli; pintado de dourado, branco e azul, erguia-se majestoso e imponente e, ao seu lado, mas não menos imponente, o templo dedicado a Quetzalcóaltl. Além destes, outra dezena de templos aglomeravam-se em seu âmago, erguendo-se em direção aos céus como que tentando alcançar o lar dos deuses.  

Os rituais de sacrifício eram abundantes naqueles dias, pois chegara o tempo onde, segundo o calendário mexica, seria o ano do retorno de Quetzacóaltl. O sacrifício era institucionalizado pelos mexicas desde há muito tempo, mas de início tratava-se de um ritual religioso de entrega, onde os sacrificados eram voluntários do próprio povo, que com este ato desprendiam-se da carne e tornavam-se espíritos livres, unos com o universo. Com o passar dos anos, esta função libertadora deturpou-se, tornando-se um ritual de pedidos e solicitações aos deuses, e os sacrifícios foram estendidos para os escravos e os povos dominados que, definitivamente, não se voluntariavam para isto. Assim, o banho de sangue refletia-se nas escadarias dos templos, tingidas de escarlate pelas centenas de decapitações e corações arrancados que ali ocorriam todos os dias. Desde o início daquele ano, a fúria dos sacerdotes parecia não arrefecer. No maior deles, a pirâmide do templo de Huiltzilopochtli, os rituais de sacrifício davam a impressão de que uma nascente de sangue brotava de suas enormes escadarias, tal o volume de mortes e decapitações diárias.

Foi em mais um dia desses, igual a todos os outros que Montezuma Xocoyotzin II olhou por sobre o patamar do palácio de Axayacatl, de onde podia divisar toda a glória de sua bela cidade. O sol já ia alto naquela manhã primaveril e uma brisa suave soprava da direção oeste, fazendo as folhas do jardim suspenso farfalharem. Ele via os habitantes vivendo suas vidas normalmente e lá de cima do palácio, pareciam formigas labutando por entre os verdadeiros labirintos que eram as ruas da capital. Os ruídos típicos dos grandes aglomerados humanos lhe chegavam aos ouvidos: gritos, risadas, tinir de metais e martelos contra metal e madeira, tudo indicando que a vida seguia em paz e próspera em sua cidade. E o imperador sabia que aquela cidade e seus habitantes eram seus. Mesmo sendo mais baixo que os demais, de possuir uma complexão física que não impressionava quem o via e ainda ostentar um princípio de corcunda, ele era o legítimo dono de suas vidas e mortes, já que era o representante dos deuses no mundo mexica. E aquilo era aceito por todos, sem haver exceções.

Apesar de enxergar toda aquela beleza e ostentação e ser o dono de tudo, o imperador estava inquieto. Após o desjejum, encaminhara-se ao seu belo jardim suspenso para sentir o aroma das flores que ali surgiam em profusão, quando um estranho pássaro multicolorido e possuidor de uma extensa cauda pousou no patamar e ali permaneceu, emitindo um grasnado estridente e contínuo. Montezuma aproximou-se devagar e o pássaro não fugiu como seria de se esperar. Deixou-se apanhar pelas frágeis mãos do imperador que, ao fitar seus olhos, viu refletido neles a cena de estranhos homens trajando vestimentas impossíveis de serem descritas, caminhando pelas praias de seu reino. Assustou-se com aquilo e largou o pássaro num ímpeto instintivo; este saiu voando e grasnando na direção do mar, deixando para trás um imperador assustado e boquiaberto.

Era mais um augúrio que surgia! Também lembrou-se do tremendo raio que caíra no templo de Tzonmolco (isto num dia nublado, mas sem chuva), além de uma estranha coluna de fogo que surgira na direção leste que iluminou boa parte do céu noturno, fatos testemunhados por um grande número de pessoas. “Agora isto e mais ainda, aquela mulher…” pensava ele, olhando para a grande pirâmide do templo de Huitzilopochtli, recordando do dia em que fora carregado pelos servos em sua liteira, indo ver como andavam as obras de reconstrução, já que ele pegara fogo e ficara parcialmente destruído (outro mau presságio, segundo os vates-sacerdotes). Costumava sair com bastante frequência para ver como andava a sua cidade e estava acostumado a ver as pessoas se abaixarem e esconder seus rostos, já que era sumariamente proibido encarar o imperador sem a sua permissão, sob pena de ser executado. Na verdade, excetuando-se a corte palaciana e os seus servos privados, praticamente ninguém conhecia a aparência do imperador. E ele gostava disso; gostava de ser misterioso, intangível, quase que sobrenatural. Entretanto, ao chegar ao templo, lá estava aquela mulher sentada na escadaria, suas vestes e pele cobertas de sangue, encarando o imperador sem o mínimo de pudor, chorando copiosamente enquanto lamentava pela sorte dos mexicas.

- Oh, poderoso Huitzilopochtli! Salvai-nos deste destino! Salvai a vida dos mexicas deste horrível fim! - ao ver Montezuma se aproximar em sua liteira, correu em sua direção com os braços esticados, gritando e implorando – Tlatoani! (que era a palavra usada para se dirigir ao soberano, aquele que tem a palavra poderosa) Impeça-os de chegar! Não os deixe entrar em nossa cidade! Tlatoani! Suplico-lhe que ouça o que tenho a dizer!

Foi imediatamente derrubada ao chão com brutalidade pelos guardas, enquanto o imperador continuava o seu trajeto. É claro que ela fora morta e esquartejada naquela mesma tarde, mas Montezuma não conseguia esquecer seu rosto tingido pelo sangue em prantos, além dos seus avisos lamuriosos. E agora olhava para o templo já reconstruído, magnífico em toda a sua glória, suas escadarias já consagradas pelo sangue em honra a Huitzilopochtli, pensando se não deveria tê-la poupado e ouvido o que ela tinha a dizer. Bem, mas agora isso já não mais importava.

Neste instante, passos abafados afastaram suas preocupações e ele virou-se para ver quem era. Apesar daquela pessoa ter entrado com a cabeça abaixada, reconheceu seu servo pessoal, Yoali, que trazia em suas mãos um cálice de água fresca. Montezuma pegou-o e deu um gole.

- Já te disse que podes me olhar normalmente, Yoali; tens a permissão do imperador.

O homem ergueu os olhos para ele e, sorrindo, argumentou – Perdão, Tlatoani; mas a permissão de um imperador num dia, pode ser a sentença de morte no outro.

Montezuma achou graça na resposta e soltou um riso alto. Gostava do servo e da sinceridade que ele possuía em suas palavras. Era um homem de meia idade, com poucas rugas no rosto e com um corpo avantajado, acostumado às duras lides da servidão e tinha um riso fácil, mesmo durante os dias em que Montezuma acordava de mau humor, ameaçando de morte tudo e todos ao seu redor. Fazia parte de uma classe que era denominada de tlatlacotin, homens que vendiam a si e aos seus familiares para se tornarem serventes e moradores do palácio imperial, com o objetivo de viverem melhor e se tornarem protegidos do imperador. Com o passar do tempo e devido aos bons trabalhos efetuados, Yoali destacou-se dos demais, sendo designado como servo pessoal do próprio Tlatoani, enquanto o restante de sua família trabalhava nas cozinhas de Axayacatl.

- Um dia ainda mando arrancar esta tua língua atrevida e queimá-la no templo de Quetzacóaltl, servo! – disse rindo, enquanto devolvia-lhe o recipiente vazio – Aliás, era exatamente isto o que eu deveria fazer com algumas de minhas esposas; seu tagarelar deixa-me louco!

O servo riu alto, pois conhecia muito bem as mais de cinquenta esposas que o imperador possuía - Então para o meu próprio bem e o bem de suas esposas, espero que este dia esteja muito longe daqui, senhor dono de minha vida. O cihuacoatl (conselheiro) Tonahuac aguarda-vos na sala de audiências.

Tonahuac já era avançado em anos, mas mantinha algo de jovem em seu porte físico, apesar da longa cabeleira já estar quase que totalmente grisalha e de várias rugas formarem grandes vincos em sua face; ele ainda possuía um corpo forte que andava de forma altiva e orgulhosa, pois era o embaixador e conselheiro pessoal de Montezuma, o que equivalia no mundo mexica ao segundo cargo mais importante. Atravessou a sala como todos os súditos faziam, sem nunca encarar o imperador diretamente. E ele, mais do que qualquer outro, respeitava os protocolos imperiais. Ajoelhou-se perante o soberano quando este entrou.

- Tlatoani, que vosso dia seja abençoado; - falou, ainda com a cabeça baixa.

- Que seja o mesmo para ti, Tonahuac. Que problemas me trazes hoje?

- Os mesmos de sempre, meu senhor. Mas conforme foi-me solicitado pelo senhor, hoje estão marcadas as audiências com seu povo que, devo acrescentar, são muitas.

Montezuma suspirou. Geralmente deixava as audiências para o seu conselheiro, mas devido aos sinais e augúrios dos últimos tempos, sabia que as pessoas estavam assustadas e desejavam escutar da boca de seu imperador - que afinal, era o representante de Quetzacóaltl na terra - boas notícias para que se acalmassem e prosseguissem com suas vidas. Havia um sentimento no ar de fim de ciclo e até a sensação de que seu mundo acabaria. E cabia ao Tlatloani o papel de arauto das boas notícias. Tentando aprumar seu frágil corpo, Montezuma encheu os pulmões de ar e acomodou-se no majestoso trono todo ornado de ouro e jade enquanto, um a um, os solicitantes eram conduzidos à sua presença. O assunto que dominava as atenções eram os sinais da vinda do deus Quetzalcóaltl, mas também houve reclamações de roubos, brigas familiares e pedidos de sacrifícios, entre outros assuntos de menor importância. E assim o dia correu, com lamentações, preces e demonstrações de amor dos súditos para com seu soberano que distribuía – ao mesmo tempo – tanto palavras de conforto como sentenças de prisão ou morte. Como o dia seguiu célere, o sol já caía na direção do poente quando Montezuma deu por encerradas as audiências e retornou aos seus aposentos, acompanhado pelo conselheiro. Sentia-se exausto e levemente febril, mas tomou todo o caldo de legumes que o servo lhe trouxera, enquanto Tonahuac olhava-o preocupado. Notando o interesse do outro, o imperador inquiriu-o:

- Qual o motivo destes olhares, Cihuacoatl?

- Perdão, Tlatoani; - falou o Conselheiro – Vós pareceis abatido demais nestes últimos dias. O que vos preocupa tanto?

- Ser o representante de Quetzacóaltl na terra; - desabafou Montezuma enquanto lavava as mãos numa pequena bacia feita de ouro – Ser o dono das palavras e ações dos deuses; ser o imperador de tudo e de todos!

- Mas… não vos compreendo… meu senhor, vós sois o dono do mundo e das pessoas; não há ninguém acima de vós, excetuando-se os deuses…

- Exatamente! - gritou Montezuma, interrompendo a fala do outro – É exatamente isto ao qual me refiro! Estou abaixo dos deuses e estes estão retornando do outro mundo! Sabe-se lá o que isto significa! Posso estar sob judice de Quetzacóaltl! E se agi errado? E se tudo o que fiz até hoje não foi realmente a vontade dos deuses? E se Ele ficar desapontado com minha patética pessoa?

- Vós não sois patético! - replicou Tonahuac, com sinceridade – Vós sois Montezuma II, imperador dos astecas, amado por todos!

- Basta, basta, Tonahuac! Sei bem quem e o que sou; sentia-se cansado demais para continuar – Vá pegar um pouco de ar na varanda e deixe-me descansar…

Enquanto o servo auxiliava o imperador a se reclinar na cama, o obediente Tonahuac saiu para a varanda. Montezuma já ia cerrando os olhos quando os gritos do Conselheiro soaram do lado de fora:

- Tlatoani! Tlatoani! Correi! Oh, Tzonmolco; tende piedade!

Montezuma não corria por ordem de ninguém, mas devido ao tom consternado da voz de seu conselheiro, ergueu-se da cama e arrastou rapidamente o passo até chegar ao jardim suspenso da grande varanda de seus aposentos. O que viu deixou-o estacado no lugar, boquiaberto e sem nenhum poder de reação: uma imensa bola de luz esbranquiçada surgia no horizonte, onde o sol recém se pusera. Era um pouco menor do que a lua, porém possuía duas estranhas caudas que se estendiam por um quarto do céu diurno, pois ainda estava claro. Era uma visão magnífica e ao mesmo tempo fantasmagórica. O imperador estava estaqueado no lugar e nem percebeu a chegada do servo Yoali, que também emudeceu diante daquela “coisa” e, de olhos arregalados, quedou em seu lugar. A voz trêmula de Tonahuac trouxe o imperador de volta de seu estado letárgico.

- Meu senhor… o que é aquilo?

Montezuma simplesmente não sabia, mas iria descobrir. Seu cansaço sumira por completo e voltando-se para o servo, berrou – Mande vir um dos observadores do céu aqui! Imediatamente!

Os observadores do céu faziam exatamente o que o nome dizia: observavam o céu. Numa das margens do lago Texcoco fora construído um grande observatório, onde estes homens aprendiam tudo o que fosse possível aprender a respeito do movimento das estrelas e eram os responsáveis pela criação e manutenção do Calendário, o que equivalia a dizer que eram os senhores do tempo daquela civilização. Toda ela era baseada nas efemérides do Calendário e tudo girava em torno do que ele dizia e previa. Para confirmar a sua importância, uma construção próxima do templo de Quetzacóaltl fora erguida, onde um enorme bloco de pedra vulcânica que media mais de 5 metros de diâmetro por 1 metro de espessura e que pesava aproximadamente 25 toneladas, mostrava os dias, meses, anos, e até mesmo eras, onde o Sol dominava o centro do imenso monumento. Ali, sempre havia algum observador do céu que dava explicações e fazia vaticínios a quem quer que fosse consultá-lo.

 Não haviam se passado mais do que cinco minutos quando um observador do céu entrou. Assim que o viu, o imperador não quis esperar as demonstrações protocolares de respeito e, quebrando totalmente as regras, correu até ele, pegou-o pelo braço e praticamente arrastou-o até a varanda.

- O que é aquilo? - perguntou com firmeza, enquanto apontava o dedo para o grande fantasma no céu. O homem estava completamente apavorado, achando que sua vida corria perigo e, sem tirar os olhos do chão evitando manter qualquer contato visual com o Tlatoani, conseguiu balbuciar a resposta: - É… é um… é chamado de cometa, senhor da minha vida. Estava… previsto no calendário a sua chegada para este ano…

- E o que significa a sua aparição? - o imperador sentia sua garganta apertar.

- Tlatoani… é o ano I Caña do Calendário… é o ano do retorno dos deuses… e eles vão chegar… isto é muito claro, agora. É o ano do retorno de Quetzacóaltl, como ele mesmo afirmou… e este é o sinal definitivo de sua volta!

Uma consternação total tomou conta do ambiente. Todos quedaram em silêncio e, passado algum tempo, Montezuma começou a sentir que o seu fôlego sumia e sentiu faltar-lhe o ar. Arquejou repetidamente e foi socorrido de imediato por Tonahuac e o servo Yoali, que o conduziram de volta ao leito. Esqueceram totalmente do observador do céu que ali continuou parado, olhando para o chão e apavorado demais para chamar a atenção de alguém e perguntar se podia ir embora.

Tchydjo
O espírito e a esperança
Fulkaxó - Parte I

PRIMEIRO CAPÍTULO 

CRIAÇÃO DO ÍNDIO

 

“O índio nasceu do pau. Um pau invisível que se transformava em vários seres, com o tempo, o pajé devia saber com quem ele estava lidando. Depois, ele se revelou como índio e tinha o nome de Uirapuru. Depois ele virou o pássaro que imita vários cantos dos outros pássaros.”

Existe uma história que os cariris contam quando estão reunidos em volta do fogo, que fala a respeito da criação do índio na Terra.

Um dia, Dedualhá encontrou algo realmente estranho: um pau invisível. E ele viu que este pau podia se transformar em qualquer coisa, então criou vários seres com ele. Criou, criou, até que o pau se transformou num pássaro e a este, ele deu o nome de Uirapuru. Este pássaro podia imitar o canto de qualquer um dos demais.

Então Uirapuru, como sabia imitar as coisas, imitou Dedualhá e criou um ser à sua semelhança, e assim surgiu o primeiro cariri.

Até hoje Uirapuru continua existindo, imitando os demais seres, até mesmo as divindades da natureza. Assim, quando o pajé encontra um deles, deve ter a sabedoria da experiência para saber com quem está lidando: se é com o ente verdadeiro, ou se é Uirapuru disfarçado. Se for Uirapuru, o pajé o despacha com um “chiado de beiço.”

Contos do poder

INTRODUÇÃO - CONTOS DO PODER

 

“Sou um homem comum; qualquer um, enganando entre a dor e o prazer…”

 Peter Gast - Caetano Veloso

 

Os versos da música de Caetano Veloso definem bem o que sou: um homem comum, preso às necessidades diárias de sobrevivência na cidade grande. Não sou xamã, não sou “homem de conhecimento”, não sou guerreiro, não possuo poderes especiais. Só posso definir a mim como sendo um caçador de conhecimento e energia. Mesmo buscando algo diferente, um caminho alternativo de vida, nunca deixei de ser só um homem com suas fraquezas, egoísmos, taras e vícios. A diferença é que luto todos os dias para modificar-me, ser uma pessoa melhor e, nesta guerra contínua contra eu mesmo, às vezes venço, às vezes perco algumas batalhas, mas não desisto da luta. Jamais.

Desde que me conheço por gente sentia dentro de mim que havia algo de “errado” com a vida: ela seria  só   nascer,   crescer,   reproduzir,    envelhecer  e,

mais triste de tudo, morrer velho e fraco? Com este anseio dentro de mim, procurei respostas às minhas angústias e dúvidas nas religiões, especialmente na Igreja Católica. O problema é que as igrejas, desde cedo, sempre causaram-me arrepios. Todas aquelas imagens nas paredes, estáticas, algumas com rostos enlevados a segurarem crianças, outras trespassados por flechas, isso para não falar daquele “cara” pregado na cruz, com uma coroa de espinhos, banhado em sangue e a face em sofrimento! E os padres me diziam que ele sofrera e morrera por minha causa, para pagar os meus pecados, pedindo-me para o adorar, orar, sofrer com ele e pedir seu perdão por pecados que - eu sabia - não havia cometido. Na igreja de meu bairro havia, logo abaixo do altar, um esquife envidraçado onde repousava o corpo morto de Cristo, ainda banhado em sangue. Aquilo me impressionava tanto que, quando chegava em casa à noite, tinha pesadelos com ele. E diziam que Deus via tudo, sabia de tudo, que devíamos ser pios e bons. Nossa, que teatro de horrores era, para mim, a Igreja Católica!

Depois, passei para a filosofia Espírita que, para mim, nada mais era do que o catolicismo acrescido do conceito de vidas passadas e reencarnação. Também havia as questões das punições pelos “erros” cometidos e um “Inferno” e “Paraíso”, só que com uma nomenclatura   diferente.  E   a  partir  daí    comecei   a

percorrer todo o panteão de filosofias, crenças e seitas conhecidas - Budismo, Hinduísmo, Xintoísmo, enfim, todos os “ismos” - só que nenhuma delas me dava as respostas que eu desejava e nem explicavam a vida sem sentido e sem direção que eu levava.

Até que fui introduzido no universo tolteca através da leitura dos livros do antropólogo Carlos Castaneda, onde ele descrevia o seu encontro com um velho índio yaqui mexicano, chamado Don Juan, e a narrativa de sua convivência com um grupo de “feiticeiros”. Aquilo para mim foi como uma revelação: finalmente encontrara uma explicação plausível – mesmo que não crível – do universo e seus fundamentos, além da origem e destino de nós, seres humanos. No início não conseguia entender os conceitos que eram ensinados por Don Juan, mas com o passar do tempo e com o desenrolar de outras obras, comecei a perceber o sentido e a função de cada ensinamento – pelo menos na teoria.

Mas “A teoria na prática é outra”, já dizia o velho ditado popular. E na verdade é exatamente isso: os conceitos toltecas são tão estranhos e abstratos para nós, homens ocidentais, que somente imergindo neles de forma prática é que começamos a entendê-los. E foi desta maneira que comecei a não-fazer, sonhar, espreitar, parar o mundo, entre outros conceitos que são detalhados mais adiante.

Quando conheci os livros de Carlos Castaneda, só me interessava pelas partes onde ele descrevia o uso das “plantas de poder” e as experiências que elas lhe proporcionavam – no contexto do final dos anos 70, este tipo de experiência possuía grande valor. Conforme fui acompanhando sua obra, pude observar a mudança do meu enfoque como leitor, até que percebi que havia muito mais além disso, e comecei a valorizar as pequenas mudanças que lhe aconteciam no dia a dia, através das técnicas que Don Juan Matus falava. Isto fez toda a diferença. Não focar nos grandes desafios dos guerreiros (encontro com aliados, entrada em outros mundos, saltos em abismo), mas nas pequenas coisas que podemos fazer utilizando técnicas muito simples que, com seu uso contínuo aliadas a uma boa dose de paciência, produzem efeitos sensacionais em nossa percepção diária do mundo.

Todos temos que ter um propósito – aquela força que vive adormecida dentro de nós desde há muito tempo – seja este qual for, para que possamos realmente mudar a nossa vida. Temos de viver cada momento plenamente, já que cada segundo que passa é um segundo a mais que deixamos desaparecer e que nos aproxima do nosso fim inevitável: a morte. Não busquei descrever as experiências “transcendentais” pelas quais passei – apenas trato de duas, nas quais fiz o uso de  plantas  de  poder,  mas explica-se pelo  fato  de

terem sido experiências que transformaram minha vida e mudaram o rumo do meu caminho – as quais são pontuais e estranhas demais para nossos padrões de homens comuns. Tratei de contar neste livro as pequenas experiências pelas quais passei no dia-a-dia, coisas simples que, ao mesmo tempo, são poderosas modificadoras de comportamento e padrões – como o contato com as forças da natureza e com o grande mistério que existe além da nossa consciência ordinária - na luta incessante para ser uma pessoa melhor e ver este mundo com outros olhos.

E por fim, acima de tudo, devemos sempre nos lembrar: não existem mestres, gurus, guias espirituais ou xamãs que lhe darão a “fórmula mágica” para a libertação física, mental ou espiritual. Só quem pode conseguir os nossos objetivos somos nós mesmos, mais ninguém. E não é um caminho fácil, mas vale a pena trilhá-lo. É difícil sair de nossa “zona de conforto” para descobrir o que nós somos, de onde viemos, para onde vamos.

 Não tenho desejo de nada com este livro. É somente um testemunho do coração, o testemunho do meu propósito de mudar a perspectiva de minha vida e, fazendo isso, buscar alcançar o meu maior potencial como ser humano e, acima de tudo, ser uma pessoa melhor. E se este livro servir de valia para alguém, melhor ainda.

Contos ligeiros e outros...
nem tanto

DESCE UMA ESTRELA

 

 

 Nos tempos de criança, meu time de futebol de salão era o máximo. Bom, meu time é uma forma de dizer, já que eu passava a maior parte do tempo no banco de reservas. O restante do time é que era o máximo. Tinha o craque maior, Fábio, um menino franzino e cabeludo que vivia sujo (ele sempre dizia que banho era coisa de maricas) mas com a bola nos pés, transformava-se em Pelé. Ninguém o parava. Só tinha dois defeitos: chutar somente com o pé direito e quase nunca passava a bola, mas resolvia tudo praticamente sozinho e, quando não fazia gol, deixava alguém sozinho para fazer. O goleiro era o Bolão. Praticamente não possuía agilidade nenhuma, mas era enormemente gordo, tão gordo que, quando saía para fechar o ângulo do atacante, fechava mesmo, pois não sobrava nenhum espaço para a bola passar. Mesmo com esta deficiência, era um dos melhores goleiros do bairro. Na zaga reinava, absoluto, o negão Ronaldo, um garoto de quase um metro e oitenta (isso que ele tinha só onze anos!) que, de tão preto, chegava a ser azul, o que lhe rendeu o apelido de "Azulão". Ganhava quase todas as divididas contra os adversários com uma tática infalível: jogava-os para fora do campo com seu corpanzil de jerivá. O nosso melhor atacante era o Flores, um menino forte, com braços de estivador, que se passaria por qualquer garoto comum não fosse por um pequeno detalhe: ele tivera paralisia infantil e suas pernas eram muito finas, feito dois gravetos tortos. Mas tinha um inacreditável controle de bola, e metia medo nos outros garotos, quando às vezes corria rente ao chão, ajudado pelos braços, mantendo a pelota entre as pernas. Nosso lateral esquerdo era o Alemão, um gringo que viera de Bento Gonçalves e que falava com um forte sotaque da colônia. Cruzava a bola como ninguém, mas tinha uma grande deficiência: era extremamente míope e usava um óculos fundo de garrafa, o que causava-lhe algumas inconveniências: durante o jogo os óculos caíam e ele não enxergava mais nada. Ficava feito barata tonta, procurando as lentes pelo chão, esquecendo do jogo e dos adversários, que roubavam-lhe a bola e contra-atacavam. Era a vítima preferida do negão Ronaldo, que lhe dava vários cascudos toda vez que lá se iam os óculos pelo chão. Curiosamente, foi um adversário que lhe deu a solução para o seu problema. Durante uma partida, enquanto o Alemão estava de quatro no campo procurando seus óculos, o garoto do outro time lhe gritou, enquanto roubava a bola:

- Amarra isso na cara, ô quatro olhos!!!

  Não deu outra: no jogo seguinte lá estava o Alemão, feliz e sorridente, com um elástico amarrado na armação, correndo feito louco. Nunca mais perdeu uma bola e o negão Ronaldo teve de trocar seus cascudos por abraços frenéticos depois de cada vitória. Entre os reservas, havia o Ricardo, um dos poucos filhos de gente rica do Grupo Escolar Ceará (naquela época, quem vivesse numa casa de alvenaria, cujo pai possuísse um carro e dormisse sozinho no seu próprio quarto, era chamado de rico). Era um garoto muito brincalhão, que vivia pregando peças nos colegas e, por essa mesma razão, ficava no banco "prá deixar de ser sacana com os outros", como dizia o treinador.  O Fernando era outro baita jogador, mas como era muito baixinho, só entrava se o outro time fosse menor que ele, pois não ganhava nenhuma dividida contra os adversários e frequentemente era jogado para fora do campo. Ah, e como esquecer do Celso, um garoto muito estranho, que usava um cabelo escovinha e adorava filmes de caratê e terror (mas quem não gostava, na época?) e tinha uma cara de doido varrido. Pensando bem, não era só a cara: ele era louco varrido. Em meio ao jogo, se recebesse uma entrada mais dura, seus olhos injetavam-se de sangue e uma fúria incontida tomava-lhe conta. Partia então para cima do cara com os cotovelos à frente, distribuindo cotoveladas e chutes para todos os lados, inclusive para cima de nós! Era expulso em todas as partidas em que entrava, por isso só era escalado quando o adversário era maior e mais forte, ou quando precisássemos abrir a retranca "a tapa". Por último, havia eu. Até que eu não era tão ruim assim, mas o meu grande defeito era ser possuído por uma insegurança fatal, que me levava a errar passes e chutes fáceis. Mas como era amigo de todos, eles me mantinham no time, apesar de nunca ter entrado em campo.

Certa feita, o clube do bairro promoveu um grande torneio infantil, que duraria um mês inteiro e teria a participação de vinte e quatro times de toda a cidade. Como meu pai era sócio, chorei para que ele inscrevesse o time da escola, com o forte argumento de que, se não entrássemos no torneio, eu apanharia do Azulão. Papai inscreveu-nos (graças a Deus!) e fomos participar de uma partida seletiva para o torneio. Ganhamos fácil, com três gols de Fábio e um de Flores, que ganhou a simpatia da torcida, que começou a chamá-lo de o cobra (não pelo que jogava, e sim pela forma como se locomovia, rasteiro e sinuoso). Assim, conquistamos o direito de participar junto dos times mais fortes, tais como Teresópolis, Internacional, Grêmio e o grande favorito: o IPA, que possuía um time gigantesco para os nossos padrões de guri. Todos eram mais altos e mais fortes que o Azulão. Éramos a "zebra" do torneio, mas "quem não arrisca não petisca" disse-nos o treinador, nosso professor de educação física, seu Romeu. Fomos à luta e, já na primeira partida, vencemos o Força e Luz por 4x1, com direito a show de Fábio e dois gols de Flores. Assim fomos indo, ganhando partida por partida, às vezes de goleada, outras por um mísero 1x0, até que chegamos à final. E adivinhe contra quem íamos disputar o título? Adivinhou! Contra os gigantes do IPA, que haviam vencido o Grêmio na semifinal. Mas tínhamos esperança na vitória, pois o time havia vencido todas até então e ganháramos a simpatia da torcida do clube, já que o time da casa, o Teresópolis, havia sido eliminado pelos gigantes.

Fomos para o jogo. Em campo, Bolão, Azulão, Fábio, Alemão e Flores, todos os titulares. O banco também era o titular, comigo entre eles, cheio de expectativa e confiança, até que o time deles entrou em campo. Homem, os caras eram gigantes mesmo! A nossa confiança começou a ruir por terra ao vermos o zagueiro central, um garoto enorme, ruivo, sardento e com grandes dentões para a frente, que começou a fazer caretas e ameaçar o resto do time, dizendo que ninguém iria sair vivo dali. As pernas do Bolão começaram a tremer visivelmente, ele dizendo que era cansaço, mas nós sabíamos que ele estava era se cagando de medo. Pois muito bem. O juiz soou o apito inicial, a bola foi de Fábio para Flores que tentou entortar o ruivo, mas foi maldosamente pisoteado por ele e se machucou (também, com aquelas perninhas fininhas que ele tinha, só podia dar nisso!). O juiz fez que não viu nada e só marcou falta para nós. Flores foi substituído pelo Celso, que já entrou babando de vontade de dar porrada no ruivão. Ah, esqueci-me de mencionar que o Celso rangia os dentes tão alto que chegava a nos assustar. Pois do lado de fora do campo nós escutávamos o rangido, seu olhar fixo no ruivão. O juiz autorizou a cobrança da falta, Fábio bateu e...GOL!!! Saltamos do banco, entusiasmados e felizes, quando olhamos incrédulos para o Celso, que corria feito louco em direção ao ruivão e lhe deu uma voadora fatal, daquelas que mataria qualquer um no colégio. Mas não é que o cara nem saiu do lugar? Foi como se o Celso tivesse se jogado contra uma parede de tijolos. Estatelou-se no chão, enquanto o ruivo soltava uma risada gutural. Celso foi expulso na hora e tomou um cascudo do Azulão, antes de sair do campo.

- Viram a porrada que eu dei nele? perguntou sorridente para nós, antes de tomar vários tapas e cascudos de todos do banco, inclusive do treinador. Agora estávamos bem arranjados: jogando só com quatro contra um time de gigantes. Pois não é que, assim que a bola rolou, o ruivo desferiu uma patada atômica em direção ao gol, acertando o rosto do Bolão, que foi a nocaute? Teve de sair na maca, seus olhos revirando e dizendo coisas incompreensíveis, como "Mamãe, cadê baleia?" e "Me dá o Bob". O treinador mandou o Ricardo entrar no lugar dele, pois ele era o que mais se aproximava de um goleiro no time, depois do Bolão. Ricardo entrou fazendo piadinhas dirigidas ao ruivo e foi logo jurado de morte pelo atacante deles. O jogo prosseguiu, e mais uma baixa: Alemão foi calçado pelo marcador, caiu no chão e quebrou os óculos, ficando incapacitado de enxergar qualquer coisa que não fosse a ponta do seu nariz. Foi substituído pelo Fernando.

Assim nos arrastamos pela partida, até que, faltando cinco minutos para o fim, o ruivão trombou em Fernando, lançando-o para fora do campo, driblou o Azulão e, com um toque sutil, tocou no canto. Ricardo se esticou todo, mas não conseguiu segurar. Era o gol de empate, que foi muito comemorado por eles com gritos e rugidos guturais e estranhos. O treinador deu um chute no banco, e nós ficamos inconsoláveis e incrédulos, até que o Celso apontou para o Fernando, que continuava fora de campo. Lá estava ele, todo encolhido num canto, chorando compulsivamente. Corremos todos para lá, e ouvimos um grito manhoso e ranhento:

- EU NÃO QUERO MAIS BRINCAR!!! e saiu correndo em direção ao vestiário.

Era o fim. Faltavam apenas dois minutos de jogo. O treinador coçou a cabeça e solicitou um tempo para o juiz. Olhou para mim, sozinho ali sentado no banco, fez uma careta e decretou, após soltar um longo suspiro:

- Te aquece e entra.

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